terça-feira, 4 de março de 2014

Os clássicos




Há dois anos investi uma quantia ínfima em um verdadeiro tesouro. Passei meses colecionando literatura clássica, a um custo tão baixo que não acreditava cada vez que recebia pelos correios, meus três exemplares mensais. 
Ao todo foram 35 livros de autores das mais diversas nacionalidades. Alguns, velhos conhecidos e amados, a exemplo de O Retrato de Dorian Gray, Madame Bovary, Crime e Castigo, A Metamorfose, a Divina Comédia, Orgulho e Preconceito, O Primo Basílio e outros que li e reli algumas vezes. O fato de trabalhar em uma Biblioteca me facilitou muito o acesso a eles, os clássicos.
Confesso que alguns me custaram.
Em Os sertões, de Euclides da Cunha, levei meses para conseguir vencer a aversão causada pela  introdução, extremamente técnica, e adentrar nos mistérios do beato Antonio Conselheiro, líder de um povo determinado, que enfrentou as tropas do governo, em luta desigual, até a morte, por um ideal.
Crime e castigo, de Dostoiévski. Neste, levei quase um ano para concluir a leitura. Não é um livro difícil de entender. Monótono em algumas partes por conta dos diálogos infindos, na verdade é um enredo bem simples. Alguém, movido por uma extrema necessidade física,  comete um crime e tenta justificar-se. Difícil é conseguir explorar a alma de cada personagem no decorrer da história, seus conflitos, mistérios, medos e razões e conseguir fazê-los revelar,  um pouco que seja, de suas reais intenções. 
O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, foi o que li mais rapidamente, comecei em uma viagem de férias, no ônibus que me levaria a Salvador e, durante as seis horas que durou o percurso, não consegui parar de ler. Quando cheguei ao fim, da viagem e do livro, estava completamente deprimida. É um livro denso. Há que se preparar a alma para passear por ele incólume. Este livro é uma crítica do autor a uma sociedade onde o que mais importa é a aparência, que determina o que é socialmente relevante ou não, e que vale muito mais do que os valores morais. Vítima de preconceito em sua época por ser homossexual  Wilde foi condenado a dois anos de prisão e trechos do livro foram usados como prova contra ele.
A metamorfose, de Franz Kafka, li de uma sentada. Extremamente envolvente, me vi defendendo aquele inseto asqueroso e desejando poder trazê-lo para casa e tirar a maçã entranhada em seu casco. Franz disse em um de seus discursos que “o livro deve ser o machado que partirá o mar congelado dentro de nós”. Assim me senti com A Metamorfose. Pude perceber ali a essência humana no que se refere ao tratamento com o outro, sobretudo se esse outro se torna um "fardo". Concordo com o autor quando ele diz que “precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente”. Este me angustiou.
Li quase todos da coleção. Mas pretendo reler e talvez mais de uma vez. Porque um clássico para ser entendido é preciso que o leitor esteja pronto para ele. Não me sinto pronta para metade dos livros que tenho. Sei que para muitos terei que me despir da arrogância de achar que sei alguma coisa, até porque de nada sei. Para outros terei que abrir o coração ou será uma leitura mecânica, superficial. Ainda há aqueles que não se revelam na primeira, nem na segunda leitura.
Percebo que há alguns livros, lidos pela segunda vez, tão diferentes de quando foram lidos pela primeira vez, que quase acredito que o autor o reescreveu, enquanto eu estava  distraída. Em cada idade uma percepção, quando se trata de literatura clássica. Toda releitura é uma nova descoberta porque eles nunca terminam de revelar aquilo que têm para dizer.
A linguagem empregada em uma obra clássica pode determinar a maior ou menor dificuldade de leitura. Por isso sempre indico na biblioteca em que trabalho, a leitura das adaptações para os leitores que estão iniciando. É claro que é importante terem depois contato com o texto original ou com uma tradução fiel ao original, mas para um primeiro contato, para que se interessem e apaixonem, é importante que  comecem com as adaptações e com uma linguagem mais coloquial.
Finalmente aconselho a quem tiver realmente interesse e, principalmente, a quem não tiver que insistam, comecem a ler trechos, adaptações, até estarem prontos para um mergulho no maravilhoso mundo dos clássicos mundiais.
A seguir, aí estão alguns  títulos que escolhi, entre os que tenho em minha pequena biblioteca particular, e que sugiro para um começo.

Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski
Madame Bovary – Gustave Flaubert
O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha –  Miguel de Cervantes
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
A metamorfose – Franz Kafka
A divina comédia – Inferno – Dante Alighieri 
Orgulho e preconceito – Jane Austen 
O primo Basílio – Eça de Queirós 
O morro dos ventos uivantes – Emily Brönte
Outra volta do parafuso – Henry James 
O assassinato e outras histórias – Anton Tchekhov 
Ilusões perdidas –  Honoré de Balzac 
Os sofrimentos do jovem Werther – J. W. Goethe 
Mensagem – Fernando Pessoa
Hamlet, Rei Lear, Macbeth – William Shakespeare
Coração das trevas – Joseph Conrad 
O vermelho e o negro – Stendhal
O falecido Mattia Pascal – Luigi Pirandello
O homem que queria ser rei e outras histórias – Rudyard Kipling
Os lusíadas – Luís de Camões
Grandes esperanças – Charles Dickens
No caminho de Swann – Marcel Proust
Odisseia – Homero
Moby Dick - Herman Melville 
Cândido – Voltaire 
Os Malavoglia – Giovanni Verga 
Os sertões –  Euclides da Cunha
Contos de amor, de loucura e de morte – Horacio Quiroga 
Infância –Maksim Górki 




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