terça-feira, 15 de abril de 2014

Condenada à vida



É outra vez madrugada como tantas outras vezes. Olho pela janela do meu quarto a lua enorme ainda prata lá fora e, enquanto espero as sombras que a mancharão de sangue, concluo: estou condenada à vida. Coisa estranha essa constatação. Estranha essa angústia de estar viva e nada poder. Frustração pela incapacidade de dar o que sobra, derrama, explode, não cabe em mim. Talvez por isso tudo isso ainda tome o pensamento, roube o sono, invada os sonhos, se aposse deles. Mais estranho ainda é nutrir, a despeito de tudo, a esperança de um dia ver brotar dos impulsos contidos, olhares desviados, palavras não ditas e de toda lágrima caída, um riso sincero, um brilho no olhar, um sim sem falar.
Se houvesse um jeito de me fazer livre de tudo isso... Livre e útil. Ou fazer-me terra e  albergar semente ou fazer-me muda e florescer contente, se houvesse...
Mas a culpa, ah! a culpa não é minha!  Não foi meu o medo que fez surgir este mundo, o MEU mundo, abstrato, sombrio, profundo. Onde é sempre noite, sem lua, sem fim. Onde vivo e espero, pacientemente, debelar a tristeza acoplada a mim e reinicio tantas vezes mesmo no fim para, outra vez e mais uma vez, amanhecer. 

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